quarta-feira, 3 de agosto de 2011

BARBOSA


Procurava com raiva o molho de chaves em algum de seus bolsos.
Estava frio e por isso, tinha mais bolsos aquele dia. Os bolsos da jaqueta.
Porque é que esses chineses que fabricam essas roupas colocam tantos bolsos? - Pensava ele.
- Porque é que o molho de chaves se chama molho?
Tirou de um dos bolsos secretos da jaqueta comprada em alguma feirinha de roupas baratas no Brás em São Paulo.
Caminhou até a porta, procurou a chave. Abriu.
Ela fez o típico ronco das portas dos prédios velhos do centro.
São Paulo - disse ele enquanto entrava - um dos poucos lugares do mundo em que se passa frio dentro de casa.
Trancou a porta.
O apartamento cheirava à fritura. Alguma tentativa frustrada de um almoço, horas antes.
Casa com uma micro sala, um quarto com banheiro, micro cozinha e um corredor que dava na cozinha a esquerda e na sala a direita, a aparência era de uma casa organizada.
Aparência, até chegar na sala.
Livros amontoados pelo canto. Um televisor empoeirado sobre uma pilha de revistas, sempre ligado com fios espalhados. Uma mesa de centro com um cinzeiro, centenas de bitucas de cigarro pelo tapete, algumas garrafas vazias espalhadas por sob o sofá, jornais velhos, um quadro torto com uma paisagem dos Andes na parede.
Foi até a janela e abriu. Automaticamente entrou no ambiente um vento, uma brisa com o cheiro de fim de tarde.
- Para tirar os ácaros - resmungou.
Tirou a jaqueta, jogou num canto e sentou.
Espirrou com o pó dos móveis. Coçou o nariz e destampou uma garrafa. Era vinho.
Procurou o que fazer.
Ele tinha as opções: Ler os jornais velhos já lidos, reler os livros velhos, ver a porcaria do programa de televisão no último canal que pegava ou tentar dormir sem sono.
Preferiu ficar ali, sentado, bebendo e pensando.
- Domingo é sempre uma merda! - Resmungou.
Lembrou do Ed, seu velho cão companheiro. Bons tempos aqueles. Década de 90.
- Nenhuma mulher fez tão boa companhia.
O pobre Ed foi morto à pauladas pelos nóias da Luz. Recolhido pelos lixeiros, foi colocado num saco plástico e hoje jaz junto à garrafas plásticas em algum lixão por aí.
Ed Mundo. Mania doida de colocar sobrenome em todas as coisas.
Tele Visão Jr., Sofá Esponja de Peido, Quadro de Los Andes ... Tudo e todos tinham sobrenomes.
Todos os seus poucos amigos.
Japa Onêis, era o Takao Ogushi, dono da padaria na esquina. Velhos conhecidos desde os dias na rua.
Raimundo Báia, era o funcionário da padaria. Báia por causa que era baiano.
D-Jêimes era o Jaime. Colega dos árduos dias de neblina, hoje é amasiado com uma coroa maluca.
João Batista do Deserto, era o João, um cristão caridoso com uma barba de sindicalista e que havia conhecido nas andanças.
E o Ed Mundo, um cão vira-lata companheiro que o acompanhou por 8 anos.
Lembrou de todos eles.
Achou engraçado não ter amigas mulheres.
Tive duas - pensou.
- Minha mãe, que não sei quem foi nem quem comeu e a Bene Dita Cuja, filha duma puta que me deixou pra morrer! - Disse com ironia e raiva.
Não levava jeito com mulheres. Ou tinha raiva delas.
A verdade é que ele nunca conheceu sua mãe e a Benedita, sua namorada nos primeiros anos que chegou em São Paulo, abandonou-o num hospital quando ele ficou mal por causa da tuberculose.
Criado nas ruas, hoje ele era aposentado nas ruas. Velho doente, vivia dos direitos sociais.
Favor social. Pensava ele.
Com essa grana ele deixou a sua moradia por mais de 15 anos sob o viaduto Glicério, no bairro do Santana e mudou-se para um cortiço no centro. Era uma porcaria, mas melhor que o viaduto.
A TV, ele ganhou de presente do Japa Onêis. O sofá foi do João Batista do Deserto. A mesa de centro, as revistas, o quadro torto e os livros, ele juntou nas catanças que fazia pelas ruas.
Além da verba social ele tirava uns trocos na faxina da padaria.
Emprego que ele sabia que era gentileza do Japa e do Báia porque ele não conseguia executar direito.
Emprego não, bico. Não era registrado nem nada. Era só pra garantir um trocado mesmo.
Entre os muitos livros, tinha uma bíblia. Não a lia, mas a tratava com respeito.
Era por causa da maneira que quase sempre era tratado pelos caras que a liam. Ou diziam que liam. Menos o João do Deserto. Ele era firmeza.
Lia com dificuldade. Aprendeu tarde, numa dessas escolas de alfabetização solidária.
- Raimundo, disse Takao Ogushi. Dá uma chegada lá no cortiço e chama o seu Barbosa! Tem trampo e rango hoje!
Raimundo foi, com os braços cruzados por causa do frio, a garoa incomodava os olhos.
Sorriu com a cantada das prostitutas na entrada do prédio, subiu a escada velha até o andar do seu Barbosa.
Porta aberta. Chamou.
Abriu.
Foi pelo corredor.
Seu Barbosa estava sentado no sofá. TV ligada. Cheiro de fritura. Janela aberta, livros e garrafas espalhadas.
No seu colo a bíblia aberta, um texto sublinhado e circulado. Nas suas mãos uma caneta.
Ele estava morto.
Em seu velório estavam presentes o Japa Onêis, Raimundo Báia e o João Batista do Deserto.
O D-Jêimes não ficou sabendo.
João Batista do Deserto lia o texto sublinhado na bíblia do seu Barbosa.
Era Salmos 27,10.
Nenhum deles chorava.
Lá fora o frio e o trânsito era intenso, garoava e seu apartamento no cortiço já estava sendo alugado.
Ainda cheirava à fritura.
A janela aberta mostrava um mundo que pouco caso fez de seu Barbosa.

AUTOR :  GITO . 

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