quarta-feira, 3 de agosto de 2011

VIDA DE LATA.







Estava na praça cercada de árvores, bancos e bares. Não que fosse um amante da natureza ou da arquitetura antiga da igrejinha italiana do começo do século passado, estava ali por causa do que os bares tinham, mesmo sem o dinheiro suficiente para obter qualquer coisa.
Passeava arrastando os chinelos improvisados, amarrados com arame e as roupas sujas procurando latas e garrafas plásticas para reciclar, de onde tirava alguns trocados.
Não tinha casa e nem família, só um grupo de jovens esquisitos, que o cercavam a contar piada, repartir os lanches e o álcool. 
Eles não vieram àquele dia. Deviam estar na escola ...
Era o fim de tarde, nublado e frio. A garoa caía agitando os piolhos ou algo assim, que fazia a cabeça coçar.
O estômago vazio reclamava do atraso do almoço, que até aquela hora tinha sido apenas um pedaço de pizza encontrado na frente da lanchonete e dois goles na cachaça.
O corpo reclamava da falta de descanso, a cabeça variava entre o cansaço, o sono, a fome, o álcool e o frio de uma noite mal dormida sob a mesa de sinuca num bar ao fundo de um posto de gasolina.
Quando já se está quase sem alma e se tem consciência disso, é porque ainda se existe.
E se punha a pensar sobre a grandeza do mundo, sua imaginação tinha dificuldade de imaginar outros cantos, outros lugares fora os quais já tinha passado.
Se o Brasil é grande assim, imagina a distância daqui até a China ... Onde fica mais longe, o Japão ou a Austrália?
Queria conhecer a Rússia na infância, mas então desviou os pensamentos, a infância tinha sido horrível e traumática, como adulto os desafetos com as mulheres, os sonhos fracassados e a angústia dos dias maus o faziam ser agora a chacota, sem ter o que fazer ou para onde ir, um desempregado, aos 50 anos, sem nada, com algumas moedas no bolso, cerca de um real e 25 centavos, um carrinho de madeira que transportava latinhas, uma vida, algumas histórias, a garoa... recapitulou a vida em sua lembrança... as músicas, os bares, os lugares, as pessoas, o cheiro de capim molhado, o sotaque de sua terra, o cão sujo e companheiro, dias e noites de pura monotonia, sem sentido nenhum, sem chance alguma.
Então ouviu os gritos em suas costas, dois rapazes e uma moça, magros, limpos, rindo.

- O que é aquilo ali?
- Pô, não sei.
Ele não se mexeu.
- É gente?
- Deve ser porque se mexe, mas tá mais para um lixo.
Riram.
- Ei velho, disse um dos rapazes - O que cê leva nessa sua Ferrari? - apontando o carrinho e fazendo rir os outros.
- Levo a vida. - Disse o velho, desconversando.
O rapaz jogou umas latinhas do carrinho no chão.
- Você só carrega lata e lixo. Sua vida é lata e lixo! Isso sim é sua vida.
O velho pegava as latas no chão, enquanto ouvia a risada dos jovens que seguiam os seus caminhos:
- Velho bêbado vagabundo!

Empurrou seu carrinho ao contrário dos jovens e de encontro à garoa, em dez minutos estava sob a mesa de sinuca do velho bar atrás do posto. Já era noite. Espichou o papelão, estacionou o carrinho ao lado, tirou o velho cobertor de uma sacola, esticou sobre o papelão, enrolou jornais velhos nas pernas e procurou na frente do bar algum resto de comida ou cigarro. Não encontrou nada.
As horas passaram.
As senhoras da caridade da antiga igrejinha italiana vieram e trouxeram-lhe uma sopa. Não chegaram muito perto. Não comeram da sopa, como se fossem indignas.
Disseram algumas palavras sobre salvação ou deixar essa vida, coisas que ele estava acostumado à escutar toda semana ...
Se foram.
Olhou para o prato descartável. Não precisava de colher, levou o prato à boca e tomou o líquido. Escorria pelo queixo. Limpou com a mão. Jogou o prato longe.
Colocou o boné sobre os olhos, ficou escuro. Estava frio. Juntou as mãos como numa oração entre as pernas. Ouviu o som da garoa. Deu um longo suspiro, profundo. E morreu.


AUTOR : GITO

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